A revolta feminina e a música sertaneja

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Por incrível que pareça essa não é daquelas teorias que pensei na mesa de boteco. Um dia comecei a prestar atenção em todas as músicas sertanejas que conheço (por osmose, já que não é meu estilo preferido) e nas atuais, que ouço mesmo sem querer. Divaguei sobre o recorte cronológico com alguns amigos, um pensamento foi levando ao outro e pimba! Lá estava a teoria que partilho agora com o mundo. Por favor, homens, leiam de coração aberto.

Na minha teoria tudo começa lá nos idos de 1940 e 1950. A música sertaneja era, à época, sinônimo da vida no campo, do bucolismo, das piadinhas saudáveis de duplo sentido, da vidinha tranquila e familiar. Como exemplo podemos citar a dupla Tonico e Tinoco, com Beijinho Doce, As Andorinhas, Luar do Sertão; a dupla Tião Carreiro e Pardinho, com Amargurado, Mulher Amada,  onde cantavam para a(s) musa(s) inspiradora, para a terra querida e a volta ao lar. O normal nessa época era mulher cuidar da casa, do marido, dos váááários filhos. O marido tinha a tranquilidade de ter seu lar como porto seguro, a boemia com os amigos e as amantes espalhadas pelo caminho. Essa foi a toada até meados de 1960, onde Pena Branca e Xavantinho ainda cantavam melancólicas poesias para o sertão, como aquela Uirapuru “seresteiro cantador do meu sertão”.

Chega o final de 1960. Começa o amor livre no mundo ocidental e no Brasil não podia ser diferente, mesmo a “moda” chegando um pouco atrasada no interior do país. Nessa época a sociedade não aprovava, mas as mulheres começavam a perceber que havia algo errado naquela vidinha que a maioria levava. E que elas podiam um pouco mais do que só ficar em casa cheirando a cebola. Algumas mais ousadas já falavam sobre trabalhar fora de casa, sobre desquite (!!!), direito ao voto. Outras timidamente até desejavam os lindos atores do cinema e da TV.

É na transição para 1970 que começa a dor de corno, minha gente… Nada melhor do que retratar isso lembrando de Boate Azul, de Milionário e José Rico. O cara fica sem rumo de tanta dor de amor e nem a dama da noite fica com ele. Quem nunca cantou em fim de festa, né? Eu já, milhares de vezes. Mas voltando à revolta, podemos perceber o pé na bunda de geral com Ainda Ontem Chorei de Saudade, com João Mineiro e Marciano. Nessa o cara sofre, coitado… sente um ciúme dos infernos! Provavelmente as mulheres, tanto a patroa quanto a amante, cansaram do cheiro de cachaça dele e arrumaram outro. E isso perdura nos anos de 1980, não pense que foi uma passagem rápida!

1990 e 2000 o pau quebra. A mulherada enlouquecida e revoltada entra dando voadora e um belo foda-se pra tanta falta de perspectiva durante anos a fio. Tá aí Christian e Half, Chitãozinho e Xororó e Leandro e Leonardo que não me deixam mentir. “chora peito, me mata de uma vez”, “fio de cabelo no meu paletó”, “e nessa loucura de dizer que não te quero vou negando as aparências disfarçando as evidências”, “é o amor que mexe com minha cabeça e me deixa assim”… Cara, dá até dó. As mulheres começam a entender seu poder, tanto sexual quanto profissional, e pisam nos pobrezinhos.

Mas também  tem uma hora que neguinho cansa de sofrer, né? Aí os filhos desses sertanejos, netos daqueles que cantavam ao sertão e à vidinha tranquila, se rebelam e criam o sertanejo universitário. Começa então a fase ostentação e desprezo ao pisoteio. “E agora eu fiquei doce igual caramelo tô tirando onda de Camaro amarelo”, “quando eu passava por você na minha CG, você nem me olhava”, “Chora me liga implora meu beijo de novo, me pede socorro, quem sabe (queeeeem sabe) eu vou te salvar”. Fora isso agora eles cantam a balada, a bebedeira e grana que conseguiram ganhar (ou não). E a mulher, onde fica? Se rolar rolou. Se não, tem um monte à disposição (tudo mentira, sofrem horrores por causa delas).

Aí fica aquela interminável briguinha de vaidades, de quem pode mais. E no final das contas a dor de corno, de ambos os lados, prevalece. Então, gatinha assanhada… cê tá querendo o quê? Vai fazer parapapá, parapapá, parapapá, garrá, beijar… Chega de briga, “eu vou parar”.

 

Por Débora Bordin

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